O avesso da moda

Revista B | Arquivo – Por BIANCA COUTINHO DIAS

A moda pode ser pensada como um discurso criado a partir das tramas simbólicas da história e da cultura, recriando as singularidades e mistérios do humano.

Vista como um conjunto de relações mantidas através de uma linguagem própria, a moda é um discurso sem palavras, uma “estrutura necessária” que permite recontar/recortar a aventura da constituição humana pela roupa, pelo vestir e pelo re-vestir.

Observamos, hoje, grandes estilistas criando vestidos que devolvem certa dignidade ao feminino, tornando a mulher mais única na sua relação com a radicalidade do desejo.

Pensar a moda é pensar o sujeito e também aquilo que o veste, é pensar o demasiadamente humano que a moda revela e desvela.

Do corta e costura irrompe uma sutil e delicada relação da moda com a psicanálise, que acontece em função da relação existente em ambos – moda e psicanálise – com o tempo: moda e tempo encontram-se tão intimamente associados como estão sujeito e tempo para a psicanálise.

Trata-se de se interrogar qual é o lugar do novo e do verdadeiramente subjetivo/subversivo na moda, num lugar onde a perda de referenciais é quase total e num tempo onde a velocidade tola e alienada consome e escraviza, fazendo-nos produtos de um discurso, ao invés de sujeitos engajados na fala e por ela responsáveis.

Em fevereiro deste ano, ALEXANDER MCQUEEN – estilista inglês que ganhou cedo a alcunha de enfant terrible – se despediu do mundo da moda, o “Império do Efêmero”, deixando interrogações tão importantes sobre a efemeridade da vida e da criação, assim como o filósofo francês Gilles Lipovetsiky, que já fazia eco com essas questões e apontava uma era vazia e cheia de inquietações sem ancoragem.

Em 1998, na revista Dazed e Confused, McQueen fez da modelo Aimeé Mullins, portadora de deficiência física, musa de seus ensaios

McQueen era, por assim dizer, um símbolo de tudo isso, sempre encenando seus fantasmas em coleções brilhantes e geniais, que ecoavam a melancolia de escritores como Edgar Allan Poe e Lord Byron, como ele cavaleiros da morte e da beleza trágica, tão iconoclastas e rebeldes em suas criações de “vestir vazios com palavras”, como McQueen de “vestir corpos em vertigem absoluta” com tecidos poéticos e costurados no real da existência, mostrando em poucas e precisas “palavras” a coragem de um artista que não recuava diante da estranheza de existir.

Transformava em arte aquilo que podia deslizar para o banal – arte, talvez, um tanto sombria e em flerte constante com Eros e Tânatos mas, em última instância, romântica e extremamente subversiva.

Em 1998, na revista Dazed e Confused, McQueen fez da modelo Aimeé Mullins, portadora de deficiência física, musa de seus ensaios, interrogando o lugar do corpo e da falta num meio que insiste numa perfeição que eclipsa o sujeito, ao fazer dele mero receptáculo de um ideal cego e alienado.

Com uma verve teatral única, já montou um xadrez humano e mergulhou nos jogos e nas tramas complexas da vida. Homenageou Hitchcock e as armadilhas do desejo. Recriou, com apuro quase cirúrgico, a Noite dos Desesperados de Sidney Pollack, com modelos dançando até não poderem mais, num arroubo poético rápido e rasteiro, assim como foi sua vida: curta e intensa como um poema de Chacal.

Sem falta, não há o que criar. Mc Queen vive e dança descalço no meio de nós! Montaigne já dizia: Escondemos certas coisas para melhor mostrá-las. Vestir-se é exatamente isso!

Pubicado em Março/Abril 2010
Revista B Edição 24
Texto BIANCA COUTINHO DIAS
Imagens Tribute | ALEXANDERMCQUEEN.COM

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