Choque Cultural – Galeria-laboratório de novas linguagens
Revista B | Arquivo – Por BIANCA COUTINHO DIAS
Em São Paulo, uma das maiores urbes do mundo. Ali na Vila Madalena, onde se pode sentir no ar o cheiro da modernidade nostálgica, misturado a uma pulsação viva de arte e criação por todos os lados. No número 250 da Rua Medeiros de Albuquerque, num prédio pequeno e todo grafitado – que, de imediato, já diz a que veio – está o acervo da Choque Cultural.
Fora, no muro, dialogando em perfeita sintonia simbólica com o que há nos entornos e contornos, o grafite – como expressão máxima de vanguarda e flexibilidade. Dentro, transitando no meio da cultura urbana, um acervo de pinturas e obras dos mais variados estilos,
de artistas como a célebre norte-americana Tara Mc Pherson, e outros, unidos pela origem e destino.
Entre eles, DANIEL MELIM, que ganhou destaque por seu trabalho com a comunidade do Jardim Limpão, em São Bernardo do Campo – onde ocupou todo um morro com pinturas nas fachadas das casas -, além da exposição De dentro para fora/De fora para dentro, no MASP, em parceria com a Choque Cultural. O imagi-nário apresentado por Melim remete ao conforto de figuras retiradas de compêndios de clichês de publicidade antiga e simbolizam o mundo ingenuamente feliz, projetado pela propaganda. O artista transforma os clichês em estêncil, que utiliza, às vezes com ironia, outras vezes desprezando a qualidade simbólica da imagem, ficando apenas com a textura proporcionada pelas manchas de tinta, muros mal acabados e construções pobres. Pátinas, rabiscos, pinturas descascadas, tudo vai sendo apropriado pelo artista e transformado em composições. A intervenção salta do mural para a instalação, numa ocupação sofisticada do espaço e dos signos urbanos.
CARLOS DIAS, artista multimídia, pesquisa suportes incomuns e o desenvolvimento das ferramentas para lidar com eles. Sua principal linguagem é a pintura em proposta estética suja, contemporânea, pop, energética e barulhenta, cujo impacto se faz pelos sentidos e não pelo pensar. No seu trabalho, a instalação também é destaque. Sua gráfica é marcante e fortemente ligada à pintura gestual. Riscos, escorridos e manchas são elementos recorrentes nas suas pinturas, onde vez ou outra surge uma frase ou palavra escrita numa tipografia própria. Os suportes podem variar muito, das telas aos painéis de madeira, passando por qualquer objeto encontrado e que possa ser pintado.
Na Choque Cultural, esses universos se misturam em desarranjo estético “quase perfeito”. Tudo que é muito óbvio passa longe de lá e as obras e o espaço se mesclam em múltiplas variações
RAMON MARTINS explora a técnica do estêncil, herdada do graffiti, passeando pela tinta acrílica, aquarela e têmpera, com grande repertório pictórico. Sua obra revela sensualidade e um acento pop-psicodélico, com influência de arte africana e indiana.
STEPHAN DOITSCHINOFF – um artista autodidata, também conhecido como Calma – cria, por meio de desenhos, pinturas, murais, esculturas e instalações, um universo de onde emergem inúmeras questões simbólicas e existenciais: decadência, redenção, culpa, paz, salvação, transcendência. Em 2005 iniciou o desenvolvimento de seu mais audacioso projeto artístico: o de pintar uma cidade inteira. Compondo com as histórias, as crenças e a realidade local da cidade de Lençóis (BA) e dos povoados dos arredores, Stephan realizou intervenções na região, onde morou de 2005 a 2008. As fachadas dos casebres, a igreja e até o cemitério formaram um conjunto pictórico de dimensões grandiosas. Essa grande instalação urbana, que envolveu a população de toda a cidade, é um trabalho de fôlego que desenvolve importantes questões sobre as dimensões político-sociais da arte pública. O trabalho foi documentado no filme Temporal, produzido pela Movie Art, e na monografia Calma. The Art of Stephan Doitschinof, publicada pela editora alemã Gestalten.
TITI FREAK, conhecido por trazer sofisticação ao grafite, é um artista que se deixa influenciar pelo imaginário da moda, dos quadrinhos e mangás, da low brow art e da cultura japonesa em geral. Por outro lado, não deixa ele de prestar atenção em Matisse, Picasso e Portinari, alguns de seus ídolos na pintura. Essa mistura de referências, contemporânea e pop, confere à sua obra carisma e empatia com o público de várias idades e procedências, ao mesmo tempo em que explora suportes tão díspares quanto os gigantescos murais públicos e os pequenos desenhos em miniatura.
Na Choque Cultural, esses universos se misturam em desarranjo estético “quase perfeito”. Tudo que é muito óbvio passa longe de lá e as obras e o espaço se mesclam em múltiplas variações. Da parede inacabada, uma obra que dialoga em sintonia fina com o espaço, e se metamorfoseia em vôo improvisado. Nada é muito racionalizado, tudo flui e acontece numa espécie de “sensibilidade intuitiva artística aguda”.
Há também ZEZÃO, “personagem-índice” da descoberta de talentos raros, promovida pela Choque Cultural. Um artista que é a metáfora do trabalho da galeria e que, hoje, avança explorando vários meios, como fotografia, cinema e publicidade, além de participar de projetos sociais importantes. Intuitivo e autodidata, Zezão tem um trabalho artístico profundo e complexo, com implicações estético-político-sociais. Faz uma arte popular e carismática, vinda da simplicidade com que relaciona o estético e o humano, com força e vibração, manipulando e misturando suportes.
A galeria recontextualiza a arte das ruas em um espaço privado, o que acontece sem que se perca o estatuto subversivo e indagador
Extraindo sua estética de uma São Paulo grande, desleixada com seu espaço público, com seus rios e com o seu lixo, Zezão vai fundo na exploração dessas mazelas e delas extrai preciosidades simbólicas. Denuncia lugares que estão abandonados e aponta esse “não-visto”, que todo mundo quer esquecer. Ele entra na cena, escolhe a locação, se relaciona com o morador da rua, vai nos lugares mais inusitados da cidade – galerias subterrâneas, lugares e galpões abandonados e de difícil acesso. Resignificando lugares esquecidos, ele também resignifica sua vida e faz do grafite uma janela para entender o espaço urbano e a existência.
RAFAEL SILVEIRA – mais novo componente da “trupe” Choque Cultural – terá uma exposição individual ao lado de PRESTO, este também uma das apostas da galeria para 2010. Buscando referências em nomes como Fernando Gonzales, Laerte, Angeli, Don Martin e Moebius, Presto mistura surrealismo com cartoon e cria um universo pop e carismático. O desenho e a pintura de Presto são muito delicados e seus suportes são escolhidos, construídos, destruídos e reconstruídos com maestria. Telas envelhecidas, madeiras desgastadas, lona de caminhão e metal enferrujado se transformam no background perfeito para seus coloridos personagens de cartoon.

O acervo fica na Vila Madalena, mas a Galeria Choque Cultural, mesmo, fica em Pinheiros, na Rua João Moura, 997. Lá, com certeza, você também vai se surpreender.
Logo na entrada, as marcas do brilhante trabalho de BAIXO RIBEIRO e MARIANA MARTINS – donos da galeria -, que conhecem como poucos a cena urbana e, com olhar sensível e apurado, descobrem e inserem talentosos artistas no mercado, dando-lhes visibilidade.
A galeria recontextualiza a arte das ruas em um espaço privado, o que acontece sem que se perca o estatuto subversivo e indagador. O grafite, por exemplo, manifestação que generalizou-se pelo mundo a partir do movimento de contracultura de maio de 1968, quando os muros de Paris foram palco de inscrições de caráter político feitas por Jean Michel Basquiat, despertando, no final dos anos 1970, a atenção da imprensa, sobretudo pelas mensagens poéticas deixadas nas paredes dos prédios abandonados de Manhattan.
Baixo Ribeiro e Mariana Martins promovem também a divulgação de importantes trabalhos de outros países. No início do ano, a galeria trouxe duas exposições individuais inéditas, de renomados artistas norte-ame-ricanos, representativas do cenário pop contemporâneo: a Dream Reality, de Gary Baseman, e An Esquisite Hunger, de Shag – este, um artista com um quê de Hieronymus Bosch “moderno”.
A Choque Cultural – acervo e galeria – quebra as regras formais dos espaços de arte e em nenhum momento se tem a sensação de déjà vu. Lugar onde se respira frescor e subversão – das pinturas aos que circulam pela galeria, passando pelo pessoal jovem que lá trabalha. Um fazer delicado e cheio de sutilezas, que expande os limites e flexibiliza as fronteiras entre os territórios, que ficam permeáveis. A arte assim, desmistificada, fazendo poesia com os componentes caóticos da cidade grande. Do excesso visual e da saturação de imagens a que estamos submetidos, extrai-se algo com o qual possamos nos indagar e comover. Da intersecção entre street art, underground, pop, vanguarda e contemporâneo, pinta-se um cenário em que, nas palavras de Baixo Ribeiro, a arte não precisa ser sagrada e nem cara. Também não precisa de tanta teoria, deve mais é emocionar.

Pubicado em Março/Abril 2010
Revista B Edição 24
Texto BIANCA COUTINHO DIAS
Imagens PATRICIA KISS




