Thomaz Farkas – Delicadeza do gesto e da forma

Revista B | Arquivo – Por BIANCA COUTINHO DIAS

Thomaz Jorge Farkas nasce em Budapeste, Hungria, em 17 de setembro de 1924. Em 1930, imigra com seus pais para São Paulo e a partir daí constrói uma linda história na fotografia e na vida cultural do país.

O dia hoje foi de emoção aqui na redação. Passar o dia com Thomaz Farkas, vasculhar sua vida, pesquisando sobre a caravana Farkas, emocionar-se com a elegância e a delicadeza de suas fotos, chorar diante de algumas imagens do Pacaembu e com o futebol retratado com a sutileza poética de um homem que sabia enxergar além. Thomaz, com sensibilidade e maestria soube transformar a paixão mundana e passageira pelo futebol numa coisa sublime. Mesmo alguém ignorante no assunto, fica comovido diante dos meninos assitindo ao jogo de fora do estádio do Pacaembu por um brecha, um intervalo. E de repente, você é conduzido para o universo sofisticado do futebol. O mesmo que fazia Albert Camus, o grande pensador e escritor argelino, citar a experiência de ser goleiro como uma das mais fundamentais em sua vida e o mesmo que fazia Martin Heidegger, abrir uma exceção aos domingos á tarde para assistir aos jogos do campeonato alemão trasmitidos pela televisão. Thomaz parece revelar em suas fotos, aquilo que disse Nelson Rodrigues, sabendo muito bem conjugar futebol com pensamento – os melhores jogadores, tanto na vida quanto no campo, não são aqueles que vêem somente a bola e sim os que olham ao mesmo tempo para ela e para além. Foi com esse olho estrábico, atento para os buracos no caminho e com o outro voltado para as estrelas, que no dia 25 de março de 2011, Thomaz parte para o infinito.- aquele menino curioso, que em 1932, aos oito anos de idade, ganha de seu pai a primeira câmera fotográfica e durante os dez anos seguintes realiza imagens que podem ser compreendidas, em grande medida, como experimentos visuais fotográficos intuitivos e exploratórios à maneira de Lartigue – onde família, animais domésticos, o grupo de amigos de bicicleta, fatos relevantes como o Zeppelin sobre a cidade e a construção do estádio do Pacaembu nos arredores de sua residência são todos temas para incursões fotográficas, e, em alguns casos, também cinematográficas.

Um luto acontecia no exato momento onde a vida e as fotos passavam por aqui. E não deixa de ser linda e como-vente a sintonia de escrever sobre uma vida tão digna e múltipla de sentidos, no momento em que ela nos deixa.

Percorrer com os olhos marejados, as primeiras séries fotográficas autorais de Thomaz Farkas, associadas ao seu ingresso formal no Foto Cine Clube Bandeirante, em 1942. Adentrar seu trabalho, em conjunto com outros fotógrafos atuantes no FCCB, como Geraldo de Barros, José Yalenti, José A. Vergareche, German Lorca, a vertente formadora da fotografia moderna brasileira, foi exercício de alumbramento.

Seguir a trajetória do rapaz que começa a estudar enge-nharia mecânica e elétrica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, se formando em 1947. Junto com colegas de curso e amigos, como os irmãos Callia, Capote Valente e o gravurista Marcello Grassmann, passa a fazer composições fotográficas surrealistas, no estilo de Man Ray.

Não deixa de ser linda e comovente a sintonia de escrever sobre uma vida tão digna e múltipla de sentidos, no momento em que ela nos deixa

Deixar o corpo se entregar ao bailado silencioso e sentir junto com as fotografias de 1945 – as comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial, no centro de São Paulo, e em 1946, com a leveza das fotos de coreografias do Balé Russo e do Ballet des Champs Elysées no Rio de Janeiro e em São Paulo. As fotos das bailarinas que sustentam a efemeridade do imediato e do urgente que se estende no tempo, é como entender a passagem desse sujeito genial que em 1948, viaja aos Estados Unidos, onde estabelece contato com o fotógrafo Edward Weston, na Califórnia, e com o fotógrafo e então curador de fotografia do Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York, Edward Steichen. Realizando, no ano seguinte, em São Paulo, sua exposição individual Estudos fotográficos e ainda nesse mesmo ano, a pedido de Pietro Maria Bardi, juntamente com Geraldo de Barros, monta o laboratório fotográfico do MAM/SP.

Experiência surrealista com colegas da Poli. São Paulo/SP, 1947 | Thomaz Farkas

Um sujeito atento ao mundo e preciso em capturar aquilo que transborda dele, e que nas palavras de João Farkas, seu filho, alguém que sempre foi apaixonado pela música e por diversas manifestações culturais: “da cachaça à arquitetura modernista, do samba à cozinha rústica nordestina – um homem que transitava sem nenhum preconceito entre a mais antenada visão de mundo e as mais profundas tradições populares.”

Visão de mundo que o levou, em 1957, por sugestão de um amigo arquiteto e urbanista, viajar a Brasília para acompanhar a construção do projeto de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. A linguagem e abordagem que escolhe nas séries de Brasília, mais próximas do fotojornalismo e da fotografia documental, parecem já apontar para os trabalhos que realizaria na década de 1960 e 1970, (na direção da Fotoptica), em especial a Caravana Farkas de documentários sobre o Brasil profundo e a série em cores sobre a Amazônia e Nordeste (Notas de viagem). Os filmes da Caravana Farkas são legados belíssimos, que fazem a vida de Thomaz se ampliar para além da ditadura do momento que acena pelo fim. Filmes que desvelam as manifestações culturais com uma verdade e um sentido ético únicos.

Um olhar depositado nas coisas mais simples, felicidades e vidas atribuladas por coisas miúdas, momentos de fulgurante simplicidade como os meninos assistindo jogo fora do estádio do Pacaembu, a mulher numa mesa de bar ou a absurda capacidade de fotografar o mínimo da civilização, a fumaça de um trem que passa e segue cortando as linhas do espaço. Uma mirada de rastros e índices do absurdo que nos convoca cotidianamente. Um jogo de luz e sombra tão agudo que parece ilustrar os livros de Tanizaki.

Em 1970, lança a revista Fotoptica, com ensaios de fotógrafos brasileiros e internacionais. Em 1979, funda, com Rosely Nakagawa, a Galeria Fotoptica, primeira galeria do país dedicada exclusivamente à fotografia.

Passa a lecionar no Departamento de cinema e jornalismo da escola de cominicação e artes da escola de São Paulo (ECA-USP). É afastado de suas funções pelo regime militar em 1974 e só volta a lecionar em 1979. Em 1977, conclui o doutorado em comunicações na mesma escola. Em 1995, torna-se presidente do conselho da cinemateca brasileira. Esse olhar agudo e desconcertadamente extenso e simples ficará estendido no tempo; Thomaz Farkas fará falta, mas ficará eternizado em suas imagens de profunda afinidade com a linguagem poética. E de tudo, nos resta, aquilo que disse em profundidade, Paul Valery: “o poema é feito expressamente para renascer de suas cinzas e vir a ser indefinidamente o que acabou de ser. A poesia reconhece-se por esta propriedade: ela tende a se fazer reproduzir em sua forma, ela nos excita a reconstituí-la identicamente.” E Thomaz Farkas assim o fez, com maestria e sensibilidade libertadora, fazendo do banal o improvável, do que passa, aquilo que permanece, e segue assim, fulgurante e majestoso no tempo.

Alguém que sempre foi apaixonado pela música e por diversas manifestações culturais: da cachaça à arquitetura modernista, do samba à cozinha rústica nordestina

Uma bela coletânea de Thomaz, pode ser vista até 1o de maio, em cartaz, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, com a exposição Thomaz Farkas: uma antologia pessoal – a retrospectiva da obra desse consagrado fotógrafo húngaro, naturalizado brasileiro. A mostra tem cerca de 100 imagens, parte delas inéditas. Por ocasião da exposição, o IMS lança o livro homônimo com cerca de 140 imagens e texto de João Farkas, filho do fotógrafo. Para compor livro e exposição, durante dois anos Thomaz Farkas revisitou toda a sua trajetória, com suporte de seus filhos João e Kiko Farkas, e em conjunto com os pesquisadores e curadores do IMS, que hoje preserva sua obra fotográfica.

Em Thomaz Farkas: uma antologia pessoal os visitantes podem conferir imagens do fotógrafo produzidas a partir da década de 1940, época em que Farkas se associa ao Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), local de debate sobre a atividade fotográfica. Afinados com as vanguardas europeias e norte-americanas, os paulistas do FCCB buscavam uma estética específica para a foto, com novos enquadramentos e pontos de vista inusi-tados. “Predominam aqui as fotografias de forte viés formal e abstrato, baseadas em construções de luz em sombra, a partir da paisagem, arquitetura, objetos ou naturezas mortas, além de imagens marinhas registrando a água e a luz por ela refletida em suas constantes mutações de forma”, explica Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS. A mostra apresenta também trabalhos posteriores, com uma abordagem mais humanista, quando Farkas se aproxima do fotojornalismo. Destacam-se as séries sobre o Rio de Janeiro que incorporam o retrato e a vida dos moradores de bairros populares e regiões do centro histórico da então capital federal.

Na mostra também estão presentes algumas imagens coloridas datadas de 1975, mas que só foram apresentadas pela primeira vez ao público em 2005. São fotografias feitas parte durante uma expedição científica ao Amazonas – fotografias de uma sensibilidade rara, plural e absolutamente ímpar.

Um brinde aos olhos e ao coração.

Pubicado em Março/Abril 2011
Revista B Edição 28
Texto BIANCA COUTINHO DIAS
Imagens Acervo Instituto Moreira Salles

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